terça-feira, maio 19, 2009

Machado de Assis: 3 contos e uma citação

A obra machadiana é de modo geral minada por uma mordacidade tão velada que muitas vezes não é percebida pelos leitores desatentos. O próprio narrador intencionalmente borra as fronteiras que contornam o que é a atitude condenável e a inexorável, como nos diz Villaça em seu artigo sobre o conto “O caso da Vara”. Aqui vamos nos deter em três contos de Machado que têm traços semelhantes, que são “Cantiga de Esponsais”, “O homem Célebre” e “O Machete”. O que esses contos têm em comum é o fato, não coincidente, de tratar da impotência do homem. As máscaras, de acordo com Bosi, são a defesa imprescindível do sujeito frente à sociedade, o que ele pode mostrar, o que é preciso mostrar para ele não ser devorado, nesses contos será frisado também essa questão.

Em “Cantiga de Esponsais” temos Mestre Romão, a personagem principal, maestro conhecido e aplaudido um senhor descrito pelo cruel narrador como um “velho que rege a orquestra, com alma e devoção” com “o mesmo amor que empregaria se a missa fosse sua”. Mas não é. E nisso, está toda a infelicidade desse ‘velho’ que no palco mostra-se feliz; ele veste essa máscara para o público, pois assim é aplaudido e admirado. E, no entanto, quando é descrito o ambiente onde ele vive, percebe-se que a felicidade de Mestre Romão não passa, definitivamente, de uma máscara social. O interior sombrio e nu da casa reflete o interior do dono. O narrador então fala qual é a tristeza de Romão: é a falta de “língua a seu dom”. O maestro não conseguia compor, não sabia exteriorizar as muitas operas e missas que havia dentro de si. Chegou um tempo em que Romão resolveu casar-se, nisso se animou a compor um canto esponsalício. Dentro de três anos que ficou casado não conseguiu compor o canto, sua felicidade, se é que existiu, não pode ser transcrita. Nesse momento do conto, o narrador nos revela um problema cardíaco da personagem, que se agravou talvez com os recentes acontecimentos. Após uma visita do médico alertando-o de que precisava não pensar em músicas, Mestre Romão decide que precisa a todo custo escrever o canto esponsalício. Nesse momento, o narrador nos leva a crer que ele realmente conseguirá deixar sua marca na história. Mas encaminhando-se para o final do conto, vemos que Romão não só não logrou seu desejo como o viu, pouco antes de falecer, concretizado no cantarolar de uma jovem esposa recém-casada. Alfredo Bosi em “A Mascara e a Fenda”, fala sobre a temática da impotência criativa que ronda o conto e a personagem. Romão é impotente porque não tem o dom para dá forma a suas idéias. E esse dom é dado pela natureza, não dependendo de seus esforços, sendo que essa natureza não é nem mais justa nem mais igualitária que a própria sociedade.

Em seguida temos outro conto de Machado, o qual também ronda a impotência. Em “O homem célebre” temos Pestana, conceituado compositor de polcas, estas lhes saem sem dificuldade, mas que persegue com afinco compor uma música erudita. Assim, Pestana passa horas noturnas tentando compor algo, mas não sai nada original. Pestana é tão obcecado por esse desejo que chega a se vestir como um compositor clássico, essa é sua fenda, é o máximo de si que pode ser mostrado, sua máscara é ser um compositor de polcas satisfeito. Assim como Mestre Romão, casa-se e enquanto esse queria escrever um canto matrimonial, Pestana persegue após a morte da mulher tísica, compor um Réquiem, para o aniversário de um ano de morte da esposa, no entanto, passa-se o primeiro ano, e Pestana não consegue compor nada bom volta então, por necessidades financeiras, a compor suas polcas. Morre sem compor uma musica erudita e sem compor suas duas ultimas polcas. A frase derradeira do conto “expirou na madrugada seguinte (...) bem com os homens e mal consigo mesmo” é muito representativa da angústia da personagem. Mais uma vez como já dito, machado trabalha a impotência, mas Pestana consegue criar diferentemente de Romão, porém ele não se satisfaz plenamente com o que compõe. Percebemos, então, uma incessante busca por parte dessas personagens de um dom que elas não possuem e morrem sem se imortalizarem pela arte da forma que desejavam.

Outro músico machadiano do qual falaremos é Inácio Ramos do conto “O Machete”. Nesse conto, temos um diferencial dos dois primeiros. O protagonista Inácio inicia sua vida musical tocando rabeca, mas logo se apaixona por violoncelo. Faz, então, da rabeca seu meio de vida e do violoncelo sua alma. Não tem dificuldade para compor o que gosta e, a priori, concilia bem trabalho e paixão, porém seu defeito é agradar a si mesmo mais do que agrada aos outros. Casa-se com Carlotinha, com quem tem um filho, com ela comunga uma vida simples e harmônica. Certo dia, enquanto Inácio tocava seu violoncelo apareceram a sua janela dois jovens, dentre os quais Barbosa que tocava machete, e que logo cai nas graças de Carlotinha. Isso provoca em Inácio ciúmes por seu instrumento, clássico e refinado para o gosto da mulher, não agradar tanto quanto o popular machete. Decide, então, que aprenderá a tocar o tal instrumento o que, todavia, não concretiza. Pois as expectativas do leitor e do marido são quebradas pela repentina fuga da mulher com Barbosa, deixando-lhe o filho. Este que a princípio seria violoncelista agora sob a exortação melancólica do pai aprenderá a tocar machete. Inácio teme que o filho tal como ele dispa-se da máscara social. O que poderíamos dizer dessas personagens é que há um desencontro entre sua essência e sua aparência, reflindo sobre a citação de Garbuglio:
“O problema do desencontro é fundamental na formulação e interpretação do homem machadiano.“Mal-entendido original”, ou portador de tal atribuição ele ganha estatuto centralizador da vida social e individual e se transforma em guia e desgoverno da criatura, para fazer do homem vítima e joguete de sua tessitura.” (J.C. Garbuglio).

Inácio não vestiu a máscara quando preciso e, portanto, foi devorado, e procura fazer com que seu filho não o seja. Já as outras duas personagens, vestiam suas máscaras de felicidade para o público, porém foram consumidos por si mesmos. De todo modo, eles foram vítimas por não poderem agradar a si mesmos. E é esse o joguete da trama machadiana, o homem tem um status social necessário para sua permanência na sociedade e deve segui-lo, porém os conflitos, as contradições humanas geram esse desgoverno de que nos fala Garbuglio. Mais uma vez, vale lembrar Bosi quando diz que “o vencedor é aquele que correu firmemente para o interesse individual, para o status; e que, em situações de risco, não deixou jamais cair a máscara”. Em algum momento da trama as personagens não puderam sustentar suas máscaras ou a ausência dela.
















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