CADWELL, Helen. “O caso de Capitu”. O Otelo brasileiro de Machado de Assis: um estudo de Dom Casmurro. 2 ed. Tradução: Fabio Fonseca de Melo Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2008, p. 101-125. [1, ed.: 2002. Original:1960.]
"A memória é o tempero do tempo"
esse blog é composto por pensamento, contos e trabalhos acadêmicos meus.
sábado, fevereiro 19, 2011
CADWELL, Helen. “O caso de Capitu”. O Otelo brasileiro de Machado de Assis: um estudo de Dom Casmurro. 2 ed. Tradução: Fabio Fonseca de Melo Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2008, p. 101-125. [1, ed.: 2002. Original:1960.]
Jorge de Andrade em Vereda da Salvação mistura fatos reais com fatos possíveis. Ocorrido no nordeste de Minas Gerais, em meio à miséria por que passava, e ainda passam as famílias rurais de baixa renda, massacrados pela fome e a falta de horizonte surge na mentalidade daquele povo a possibilidade de um vida melhor no além-morte, e um fanatismo que fez estourar movimentos messiânicos pelo País tal como o famoso episódio de canudos. Esse já em meados do século XX. A peça base-se nisso e o autor teve até mesmo a preocupação de manter o nome verdadeiro de algumas pessoas de Malacacheta em algumas das personagens, literalmente mimetizando e ficcionalizando a realidade.
O cenário na peça é dotado de uma carga semântica e simbólica expressa, sobretudo, pela disposição dos casebres e pela forma como a mata encobre as casas como se elas estivessem no fundo de um poço, envolvendo literalmente as personagens numa atmosfera sombria, o crepúsculo, miserável e fantasiosa. Os casebres de Joaquim, Manoel e Artuliana insinuam a composição de um triangulo amoroso, cujo “intruso” é Joaquim, que nutre um sentimento indefinido e denso por Artuliana sem a menor chance de ser correspondido, já que esta espera um filho de Manoel e visivelmente é apaixonada por ele. Artuliana já de inicio é portadora de um segredo, é uma mulher provocante, decidida e realista e não se convence pela nova religião. Manoel é um homem forte, de meia idade, bondoso e muito trabalhador, quem conseguiu junto aos fazendeiros casas para alguns dos agregados. Joaquim é um moço magro, alto, com aparência frágil e pouco dado ao trabalho braçal, alimenta um rancor por Manoel e chega até a por o filho de Manoel contra o próprio pai. Aparenta ter sérios complexos e problemas psicológicos, na peça chega a insinuar que ele tenha complexo de édipo, recusando casar-se. Para tanto põe na frente suas “obrigações religiosas”. Formam-se, assim, dois pólos de comportamento: de um lado Manoel, mais material, trabalho e de outro Joaquim, espiritual e obsecado pela religião. E no decorrer da peça os leitores ou espectadores, pendem ora para o realismo de Artuliana e pela “sólida humanidade” de Manoel. Ora se compadece e até compreende os motivos pelos quais os agregados se agarram com tanta fé e martírio àquela crença, não os odiando nem por cometerem infanticídio, pois a própria ingenuidade com que cometem esse crime, em parte, os absolvem.
O tempo é marcado pela passagem do anoitecer à alvorada, ou seja, tudo se passa em algumas horas, efemeridade que lembra o quanto é efêmera a própria vida. O reluzente nascer do dia é contrastado paradoxalmente com os tiros dos fazendeiros, trazendo assim a morte ou a redenção, como criam os seguidores de Joaquim.
A religiosidade é o ponto chave do enredo porque é transformada por Andrade em signo do estigma de uma sociedade cheia de vazios que procuram ser preenchidos pelo desespero ou pela esperança, esperança essa que extrapola os limites do palpável e transcende até mesmo a fronteira entre fé e fanatismo. “Partindo do tipo de reação corrente em nossa sociedade rural- o messianismo, - [Jorge Andrade] a interpretou em correlação estreita com o esmagamento econômico e a espoliação, dando vida [a peça] por uma poderosa caracterização dramática”. [ ].
A cena final é arrebatadora, uma mescla de efeitos visuais e sonoros juntamente com o transe coletivo de que são acometidas as personagens dançando e cantando e fazendo uma coreografia no mínimo exótica. De fato Jorge Andrade não é muito criativo na feitura de historias, nem na composição de personagens: apela mais para os efeitos espetaculares do que para o psicológico, porém “se as personagens perdem em riqueza interior, o talhe grandioso (grandiloqüente) dá-lhes contundência no palco. O gosto do símbolo e a estetização da linguagem configuram um realismo poético. [MAGALDI, Sábato. p.234, 1996]. Magaldi resume claramente o perfil dramático de Andrade e o motivo pelo qual ele conseguiu em sua obra retratar e apreender seu tempo de forma integral.
quinta-feira, julho 16, 2009
| Referência bibliográfica: CANDIDO, Antonio. Álvares de Azevedo, ou Ariel e Caliban. In: Formação da literatura brasileira(momentos decisivos). 2... |
| Antonio Candido nos coloca, em seu texto, encurralados entre sentimentos extremos sobre a obra de Álvares de Azevedo: amá-la ou repudia-la. Nada mais apropriado para esse jovem poeta que segundo Candido é “a personalidade literária mais rica da geração”. O Romantismo brasileiro tem três grandes poetas: Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo e Castro Alves; Antonio Candido põe Álvares de Azevedo abaixo dos outros apenas por sua imaturidade, sendo um escritor muito jovem possuidor de um aguçado, porém não amadurecido senso crítico. Por ter sido o romantismo um movimento de jovens, o poeta ultra-romântico pôde representá-lo plenamente enquanto “ser dividido, não raro ambíguo”; é satânico e perverso e ao mesmo tempo amedrontado e tenro compilando em si as exacerbações adolescentes da época. Há forte influência de Lorde Byron e Musset em seus poemas de diversas formas, o desejo de morte, o cansaço precoce de viver, o estilo de vida, a técnica, fora uma série de lugares-comuns como as palavras gozo e gozar, olhos lânguidos, seio palpitante, dentre outras citadas no texto. Com relação às mulheres, Antonio Candido diz “a sua obra exprime, com a força ampliadora da arte, a condição normal do adolescente burguês e sensível em nossa civilização”. E separa três tipos presentes na obra: a filha do povo, a meretriz e a filha da aristocracia. As duas primeiras são tratadas com desprezo, alguém que ele pode ter, mas não quer, e a última é a idealizada, a virgem impossível. A educação cristã é fator importante no drama de conciliar inicialmente amor e posse física. Na obra também é ressaltada por Candido a associação freqüente entre amor, sono e sonho, a criação de imagens fluidas, de amantes adormecidos, de céus nublados. Essa tendência de volatilizar e nebulizar a paisagem, a o ambiente noturno mostra, segundo o crítico, o psicológico do poeta, sua visão da vida e do amor. A produção do jovem poeta é extensa, todavia, Candido classifica uma parte da obra como sendo vazia e inútil. Noutra parte, sobretudo lírica tem o que Candido chama de momento de maturidade, onde se distingue ora Macário ora Penseroso na atitude poética de Álvares de Azevedo. |
terça-feira, julho 14, 2009
Não gosto de gatos mas vamos lá...
RELATÓRIO
Keynny Lina Dala Bernardina de Paula
Para minha oficina utilizei o conto O gato Preto de Edgar Allan Poe, o escritor nasceu em Boston no inicio de 1809, foi escritor, poeta, romancista, crítico literário e editor, e um dos precursores da ficção científica e fantástica modernas.
Tive a pretensão de utilizá-lo por já conhecer alguns de seus contos e gostar das histórias que escreve, ligadas a mistério, investigação, fatos fantásticos e fantasmagóricos. Quando surgiu a idéia de fazer uma roda de leitura, pensei no tema do diabo na literatura, mas achei inviável, e os contos que eu li não eram tão bons; então pensei no tema morte, ia utilizar para tanto dois pequenos contos, não conseguia me decidir entre os dois temas; então de última hora, eu, sozinha no meu estágio, já há horas lendo contos e mais contos de terror e suspense. Envolta num ambiente tenebroso de dúvida e de vultos do meu imaginário, nesse momento uma idéia entrou na minha mente sem que a chamasse, se enrolou delicadamente nos meus cabelos e pairou como uma densa névoa. Pensei de súbito – e porque não – falar de gatos. Por fim, agarrei-a com carinho e vi que me renderia muito que pesquisar sobre esses bichanos. Parti, então, para o conto que já conhecia há algum tempo, o já citado O Gato Preto.
Para concretizar a idéia imprimi o material e xeroquei, pensei em por todos numa roda e que o conto fosse lido sem pausas e variando as pessoas, após isso todos que quisessem fariam comentários sobre o conto, acrescentando informações até mesmo fatos pessoais, os quais tivessem relação com o conto ou com gatos. Descobri que poucas pessoas da turma gostam de gatos – eu gosto deles não muito perto – e que eles são os melhores amigos dos escritores. Durante esses comentários eu faria também meus comentários usando os dados da mini-pesquisa que fiz sobre os gatos e a na literatura.
A atividade não saiu exatamente como idealizei, mas esse desvio estava dentro da margem de erro. Essa margem de erro englobava a não participação nos comentários, nem todos participaram da discussão, mas a maior parte participou o que achei bem positivo. Outro fato que eu esperava era que nem todos lessem, porém nesse ponto fiquei decepcionada, porque somente 3 pessoas leram, me incluindo nesse número. Realmente, achei que a minoria não leria o conto, não sei quais fatores levaram a esse comportamento dos participantes. Eu me afobei, por causa do tempo, nos comentários e não pude passar tudo o que tinha pesquisado. Mesmo assim acho que sintetizei o conteúdo e falei o que mais importava na discussão.
A atividade foi interessante, não quis desde o início fazer uma leitura aprofundada do conto, mesmo porque não daria tempo e eu teria que ter um estudo maior, sobretudo, dos aspectos psicológicos da personagem. E o tema do gato ficaria ofuscado nessa perspectiva. Então apreendi no conto elementos folclóricos da cultura inglesa e norte-americana sobre a figura do gato. Sua relação com o mau-agouro, com a bruxaria e com o azar. O gato que é maltratado se vinga de seu dono tornando-o um assassino. Ou noutra leitura, o gato poderia ser no conto a consciência do assassino, que não agüenta sua culpa e acaba por revelar seu crime.
ANEXO 1
O Gato Preto
Edgar Allan Poe
Não espero nem peço que se dê crédito à história sumamente extraordinária e, no entanto, bastante doméstica que vou narrar. Louco seria eu se esperasse tal coisa, tratando-se de um caso que os meus próprios sentidos se negam a aceitar. Não obstante, não estou louco e, com toda a certeza, não sonho. Mas amanhã morro e, por isso, gostaria, hoje, de aliviar o meu espírito. Meu propósito imediato é apresentar ao mundo, clara e sucintamente, mas sem comentários, uma série de simples acontecimentos domésticos. Devido a suas conseqüências, tais acontecimentos me aterrorizaram, torturaram e destruíram.
No entanto, não tentarei esclarecê-los. Em mim, quase não produziram outra coisa senão horror — mas, em muitas pessoas, talvez lhes pareçam menos terríveis que grotesco. Talvez, mais tarde, haja alguma inteligência que reduza o meu fantasma a algo comum — uma inteligência mais serena, mais lógica e muito menos excitável do que, a minha, que perceba, nas circunstâncias a que me refiro com terror, nada mais do que uma sucessão comum de causas e efeitos muito naturais.
Desde a infância, tornaram-se patentes a docilidade e o sentido humano de meu caráter. A ternura de meu coração era tão evidente, que me tomava alvo dos gracejos de meus companheiros. Gostava, especialmente, de animais, e meus pais me permitiam possuir grande variedade deles. Passava com eles quase todo o meu tempo, e jamais me sentia tão feliz como quando lhes dava de comer ou os acariciava. Com os anos, aumentou esta peculiaridade de meu caráter e, quando me tomei adulto, fiz dela uma das minhas principais fontes de prazer. Aos que já sentiram afeto por um cão fiel e sagaz, não preciso dar-me ao trabalho de explicar a natureza ou a intensidade da satisfação que se pode ter com isso. Há algo, no amor desinteressado, e capaz de sacrifícios, de um animal, que toca diretamente o coração daqueles que tiveram ocasiões freqüentes de comprovar a amizade mesquinha e a frágil fidelidade de um simples homem.
Casei cedo, e tive a sorte de encontrar em minha mulher disposição semelhante à minha. Notando o meu amor pelos animais domésticos, não perdia a oportunidade de arranjar as espécies mais agradáveis de bichos. Tínhamos pássaros, peixes dourados, um cão, coelhos, um macaquinho e um gato. Este último era um animal extraordinariamente grande e belo, todo negro e de espantosa sagacidade. Ao referir-se à sua inteligência, minha mulher, que, no íntimo de seu coração, era um tanto supersticiosa, fazia freqüentes alusões à antiga crença popular de que todos os gatos pretos são feiticeiras disfarçadas. Não que ela se referisse seriamente a isso: menciono o fato apenas porque aconteceu lembrar-me disso neste momento.
Pluto — assim se chamava o gato — era o meu preferido, com o qual eu mais me distraía. Só eu o alimentava, e ele me seguia sempre pela casa. Tinha dificuldade, mesmo, em impedir que me acompanhasse pela rua.
Nossa amizade durou, desse modo, vários anos, durante os quais não só o meu caráter como o meu temperamento — enrubesço ao confessá-lo — sofreram, devido ao demônio da intemperança, uma modificação radical para pior. Tomava-me, dia a dia, mais taciturno, mais irritadiço, mais indiferente aos sentimentos dos outros. Sofria ao empregar linguagem desabrida ao dirigir-me à minha mulher. No fim, cheguei mesmo a tratá-la com violência. Meus animais, certamente, sentiam a mudança operada em meu caráter. Não apenas não lhes dava atenção alguma, como, ainda, os maltratava. Quanto a Pluto, porém, ainda despertava em mim consideração suficiente que me impedia de maltratá-lo, ao passo que não sentia escrúpulo algum em maltratar os coelhos, o macaco e mesmo o cão, quando, por acaso ou afeto, cruzavam em meu caminho. Meu mal, porém, ia tomando conta de mim — que outro mal pode se comparar ao álcool? — e, no fim, até Pluto, que começava agora a envelhecer e, por conseguinte, se tornara um tanto rabugento, até mesmo Pluto começou a sentir os efeitos de meu mau humor.
Certa noite, ao voltar a casa, muito embriagado, de uma de minhas andanças pela cidade, tive a impressão de que o gato evitava a minha presença. Apanhei-o, e ele, assustado ante a minha violência, me feriu a mão, levemente, com os dentes. Uma fúria demoníaca apoderou-se, instantaneamente, de mim. Já não sabia mais o que estava fazendo. Dir-se-ia que, súbito, minha alma abandonara o corpo, e uma perversidade mais do que diabólica, causada pela genebra, fez vibrar todas as fibras de meu ser. Tirei do bolso um canivete, abri-o, agarrei o pobre animal pela garganta e, friamente, arranquei de sua órbita um dos olhos! Enrubesço, estremeço, abraso-me de vergonha, ao referir-me, aqui, a essa abominável atrocidade.
Quando, com a chegada da manhã, voltei à razão — dissipados já os vapores de minha orgia noturna — experimentei, pelo crime que praticara, um sentimento que era um misto de horror e remorso; mas não passou de um sentimento superficial e equívoco, pois minha alma permaneceu impassível. Mergulhei novamente em excessos, afogando logo no vinho a lembrança do que acontecera.
Entrementes, o gato se restabeleceu, lentamente. A órbita do olho perdido apresentava, é certo, um aspecto horrendo, mas não parecia mais sofrer qualquer dor. Passeava pela casa como de costume, mas, como bem se poderia esperar, fugia, tomado de extremo terror, à minha aproximação. Restava-me ainda o bastante de meu antigo coração para que, a princípio, sofresse com aquela evidente aversão por parte de um animal que, antes, me amara tanto. Mas esse sentimento logo se transformou
Desse espírito, a filosofia não toma conhecimento. Não obstante, tão certo como existe minha alma, creio que a perversidade é um dos impulsos primitivos do coração sentimentos primários, que dirigem o caráter do homem. Quem não se viu, centenas de vezes, a cometer ações vis ou estúpidas, pela única razão de que sabia que não devia cometê-las? Acaso não sentimos uma inclinação constante mesmo quando estamos no melhor do nosso juízo, para violar aquilo que é lei, simplesmente porque a compreendemos como tal? Esse espírito de perversidade, digo eu, foi a causa de minha queda final. O vivo e insondável desejo da alma de atormentar-se a si mesma, de violentar sua própria natureza, de fazer o mal pelo próprio mal, foi o que me levou a continuar e, afinal, a levar a cabo o suplício que infligira ao inofensivo animal. Uma manhã, a sangue frio, meti-lhe um nó corredio em torno do pescoço e enforquei-o no galho de uma árvore. Fi-lo com os olhos cheios de lágrimas, com o coração transbordante do mais amargo remorso. Enforquei-o porque sabia que ele me amara, e porque reconhecia que não me dera motivo algum para que me voltasse contra ele. Enforquei-o porque sabia que estava cometendo um pecado — um pecado mortal que comprometia a minha alma imortal, afastando-a, se é que isso era possível, da misericórdia infinita de um Deus infinitamente misericordioso e infinitamente terrível.
Na noite do dia em que foi cometida essa ação tão cruel, fui despertado pelo grito de "fogo!". As cortinas de minha cama estavam
Não pretendo estabelecer relação alguma entre causa e efeito - entre o desastre e a atrocidade por mim cometida. Mas estou descrevendo uma seqüência de fatos, e não desejo omitir nenhum dos elos dessa cadeia de acontecimentos. No dia seguinte ao do incêndio, visitei as ruínas. As paredes, com exceção de uma apenas, tinham desmoronado. Essa única exceção era constituída por um fino tabique interior, situado no meio da casa, junto ao qual se achava a cabeceira de minha cama. O reboco havia, aí, em grande parte, resistido à ação do fogo — coisa que atribuí ao fato de ter sido ele construído recentemente. Densa multidão se reunira em torno dessa parede, e muitas pessoas examinavam, com particular atenção e minuciosidade, uma parte dela, As palavras "estranho!", "singular!", bem como outras expressões semelhantes, despertaram-me a curiosidade. Aproximei-me e vi, como se gravada em baixo-relevo sobre a superfície branca, a figura de um gato gigantesco. A imagem era de uma exatidão verdadeiramente maravilhosa. Havia uma corda em tomo do pescoço do animal.
Logo que vi tal aparição — pois não poderia considerar aquilo como sendo outra coisa — , o assombro e terror que se me apoderaram foram extremos. Mas, finalmente, a reflexão veio em meu auxílio. O gato, lembrei-me, fora enforcado num jardim existente junto à casa. Aos gritos de alarma, o jardim fora imediatamente invadido pela multidão. Alguém deve ter retirado o animal da árvore, lançando-o, através de uma janela aberta, para dentro do meu quarto. Isso foi feito, provavelmente, com a intenção de despertar-me. A queda das outras paredes havia comprimido a vítima de minha crueldade no gesso recentemente colocado sobre a parede que permanecera de pé. A cal do muro, com as chamas e o amoníaco desprendido da carcaça, produzira a imagem tal qual eu agora a via.
Embora isso satisfizesse prontamente minha razão, não conseguia fazer o mesmo, de maneira completa, com minha consciência, pois o surpreendente fato que acabo de descrever não deixou de causar-me, apesar de tudo, profunda impressão. Durante meses, não pude livrar-me do fantasma do gato e, nesse espaço de tempo, nasceu em meu espírito uma espécie de sentimento que parecia remorso, embora não o fosse. Cheguei, mesmo, a lamentar a perda do animal e a procurar, nos sórdidos lugares que então freqüentava, outro bichano da mesma espécie e de aparência semelhante que pudesse substituí-lo.
Uma noite, em que me achava sentado, meio aturdido, num antro mais do que infame, tive a atenção despertada, subitamente, por um objeto negro que jazia no alto de um dos enormes barris, de genebra ou rum, que constituíam quase que o único mobiliário do recinto. Fazia já alguns minutos que olhava fixamente o alto do barril, e o que então me surpreendeu foi não ter visto antes o que havia sobre o mesmo. Aproximei-me e toquei-o com a mão. Era um gato preto, enorme — tão grande quanto Pluto — e que, sob todos os aspectos, salvo um, se assemelhava a ele. Pluto não tinha um único pêlo branco em todo o corpo — e o bichano que ali estava possuía uma mancha larga e branca, embora de forma indefinida, a cobrir-lhe quase toda a região do peito.
Ao acariciar-lhe o dorso, ergueu-se imediatamente, ronronando com força e esfregando-se em minha mão, como se a minha atenção lhe causasse prazer. Era, pois, o animal que eu procurava. Apressei-me em propor ao dono a sua aquisição, mas este não manifestou interesse algum pelo felino. Não o conhecia; jamais o vira antes. Continuei a acariciá-lo e, quando me dispunha a voltar para casa, o animal demonstrou disposição de acompanhar-me. Permiti que o fizesse — detendo-me, de vez em quando, no caminho, para acariciá-lo. Ao chegar, sentiu-se imediatamente à vontade, como se pertencesse a casa, tomando-se, logo, um dos bichanos preferidos de minha mulher.
De minha parte, passei a sentir logo aversão por ele. Acontecia, pois, justamente o contrário do que eu esperava. Mas a verdade é que - não sei como nem por quê — seu evidente amor por mim me desgostava e aborrecia. Lentamente, tais sentimentos de desgosto e fastio se converteram no mais amargo ódio. Evitava o animal. Uma sensação de vergonha, bem como a lembrança da crueldade que praticara, impediam-me de maltratá-lo fisicamente. Durante algumas semanas, não lhe bati nem pratiquei contra ele qualquer violência; mas, aos poucos - muito gradativamente — , passei a sentir por ele inenarrável horror, fugindo, em silêncio, de sua odiosa presença, como se fugisse de uma peste.
Sem dúvida, o que aumentou o meu horror pelo animal foi a descoberta, na manhã do dia seguinte ao que o levei para casa, que, como Pluto, também havia sido privado de um dos olhos. Tal circunstância, porém, apenas contribuiu para que minha mulher sentisse por ele maior carinho, pois, como já disse, era dotada, em alto grau, dessa ternura de sentimentos que constituíra, em outros tempos, um de meus traços principais, bem como fonte de muitos de meus prazeres mais simples e puros.
No entanto, a preferência que o animal demonstrava pela minha pessoa parecia aumentar em razão direta da aversão que sentia por ele. Seguia-me os passos com uma pertinácia que dificilmente poderia fazer com que o leitor compreendesse. Sempre que me sentava, enrodilhava-se embaixo de minha cadeira, ou me saltava ao colo, cobrindo-me com suas odiosas carícias. Se me levantava para andar, metia-se-me entre as pemas e quase me derrubava, ou então, cravando suas longas e afiadas garras em minha roupa, subia por ela até o meu peito. Nessas ocasiões, embora tivesse ímpetos de matá-lo de um golpe, abstinha-me de fazê-lo devido, em parte, à lembrança de meu crime anterior, mas, sobretudo — apresso-me a confessá-lo — , pelo pavor extremo que o animal me despertava.
Esse pavor não era exatamente um pavor de mal físico e, contudo, não saberia defini-lo de outramaneira. Quase me envergonha confessar — sim, mesmo nesta cela de criminoso — , quase me envergonha confessar que o terror e o pânico que o animal me inspirava eram aumentados por uma das mais puras fantasias que se possa imaginar. Minha mulher, mais de uma vez, me chamara a atenção para o aspecto da mancha branca a que já me referi, e que constituía a única diferença visível entre aquele estranho animal e o outro, que eu enforcara. O leitor, decerto, se lembrará de que aquele sinal, embora grande, tinha, a princípio, uma forma bastante indefinida. Mas, lentamente, de maneira quase imperceptível — que a minha imaginação, durante muito tempo, lutou por rejeitar como fantasiosa —, adquirira, por fim, uma nitidez rigorosa de contornos. Era, agora, a imagem de um objeto cuja menção me faz tremer... E, sobretudo por isso, eu o encarava como a um monstro de horror e repugnância, do qual eu, se tivesse coragem, me teria livrado. Era agora, confesso, a imagem de uma coisa odiosa, abominável: a imagem da forca! Oh, lúgubre e terrível máquina de horror e de crime, de agonia e de morte!
Na verdade, naquele momento eu era um miserável — um ser que ia além da própria miséria da humanidade. Era uma besta-fera, cujo irmão fora por mim desdenhosamente destruído... uma besta-fera que se engendrara em mim, homem feito à imagem do Deus Altíssimo. Oh, grande e insuportável infortúnio! Ai de mim! Nem de dia, nem de noite, conheceria jamais a bênção do descanso! Durante o dia, o animal não me deixava a sós um único momento; e, à noite, despertava de hora em hora, tomado do indescritível terror de sentir o hálito quente da coisa sobre o meu rosto, e o seu enorme peso — encarnação de um pesadelo que não podia afastar de mim — pousado eternamente sobre o meu coração!
Sob a pressão de tais tormentos, sucumbiu o pouco que restava em mim de bom. Pensamentos maus converteram-se em meus únicos companheiros — os mais sombrios e os mais perversos dos pensamentos. Minha rabugice habitual se transformou em ódio por todas as coisas e por toda a humanidade — e enquanto eu, agora, me entregava cegamente a súbitos, freqüentes e irreprimíveis acessos de cólera, minha mulher - pobre dela! - não se queixava nunca convertendo-se na mais paciente e sofredora das vítimas.
Um dia, acompanhou-me, para ajudar-me numa das tarefas domésticas, até o porão do velho edifício em que nossa pobreza nos obrigava a morar, O gato seguiu-nos e, quase fazendo-me rolar escada abaixo, me exasperou a ponto de perder o juízo. Apanhando uma machadinha e esquecendo o terror pueril que até então contivera minha mão, dirigi ao animal um golpe que teria sido mortal, se atingisse o alvo. Mas minha mulher segurou-me o braço, detendo o golpe. Tomado, então, de fúria demoníaca, livrei o braço do obstáculo que o detinha e cravei-lhe a machadinha no cérebro. Minha mulher caiu morta instantaneamente, sem lançar um gemido.
Realizado o terrível assassínio, procurei, movido por súbita resolução, esconder o corpo. Sabia que não poderia retirá-lo da casa, nem de dia nem de noite, sem correr o risco de ser visto pelos vizinhos. Ocorreram-me vários planos. Pensei, por um instante, em cortar o corpo em pequenos pedaços e destruí-los por meio do fogo. Resolvi, depois, cavar uma fossa no chão da adega. Em seguida, pensei em atirá-lo ao poço do quintal. Mudei de idéia e decidi metê-lo num caixote, como se fosse uma mercadoria, na forma habitual, fazendo com que um carregador o retirasse da casa. Finalmente, tive uma idéia que me pareceu muito mais prática: resolvi emparedá-lo na adega, como faziam os monges da Idade Média com as suas vítimas.
Aquela adega se prestava muito bem para tal propósito. As paredes não haviam sido construídas com muito cuidado e, pouco antes, haviam sido cobertas, em toda a sua extensão, com um reboco que a umidade impedira de endurecer. Ademais, havia uma saliência numa das paredes, produzida por alguma chaminé ou lareira, que fora tapada para que se assemelhasse ao resto da adega. Não duvidei de que poderia facilmente retirar os tijolos naquele lugar, introduzir o corpo e recolocá-los do mesmo modo, sem que nenhum olhar pudesse descobrir nada que despertasse suspeita. E não me enganei em meus cálculos. Por meio de uma alavanca, desloquei facilmente os tijolos e tendo depositado o corpo, com cuidado, de encontro à parede interior. Segurei-o nessa posição, até poder recolocar, sem grande esforço, os tijolos em seu lugar, tal como estavam anteriormente. Arranjei cimento, cal e areia e, com toda a precaução possível, preparei uma argamassa que não se podia distinguir da anterior, cobrindo com ela, escrupulosamente, a nova parede. Ao terminar, senti-me satisfeito, pois tudo correra bem. A parede não apresentava o menor sinal de ter sido rebocada. Limpei o chão com o maior cuidado e, lançando o olhar em torno, disse, de mim para comigo: "Pelo menos aqui, o meu trabalho não foi em vão".
O passo seguinte foi procurar o animal que havia sido a causa de tão grande desgraça, pois resolvera, finalmente, matá-lo. Se, naquele momento, tivesse podido encontrá-lo, não haveria dúvida quanto à sua sorte: mas parece que o esperto animal se alarmara ante a violência de minha cólera, e procurava não aparecer diante de mim enquanto me encontrasse naquele estado de espírito. Impossível descrever ou imaginar o profundo e abençoado alívio que me causava a ausência de tão detestável felino. Não apareceu também durante a noite — e, assim, pela primeira vez, desde sua entrada em casa, consegui dormir tranqüila e profundamente. Sim, dormi mesmo com o peso daquele assassínio sobre a minha alma.
Transcorreram o segundo e o terceiro dia — e o meu algoz não apareceu. Pude respirar, novamente, como homem livre. O monstro, aterrorizado fugira para sempre de casa. Não tomaria a vê-lo! Minha felicidade era infinita! A culpa de minha tenebrosa ação pouco me inquietava. Foram feitas algumas investigações, mas respondi prontamente a todas as perguntas. Procedeu-se, também, a uma vistoria em minha casa, mas, naturalmente, nada podia ser descoberto. Eu considerava já como coisa certa a minha felicidade futura.
No quarto dia após o assassinato, uma caravana policial chegou, inesperadamente, a casa, e realizou, de novo, rigorosa investigação. Seguro, no entanto, de que ninguém descobriria jamais o lugar em que eu ocultara o cadáver, não experimentei a menor perturbação. Os policiais pediram-me que os acompanhasse em sua busca. Não deixaram de esquadrinhar um canto sequer da casa. Por fim, pela terceira ou quarta vez, desceram novamente ao porão. Não me alterei o mínimo que fosse. Meu coração batia calmamente, como o de um inocente. Andei por todo o porão, de ponta a ponta. Com os braços cruzados sobre o peito, caminhava, calmamente, de um lado para outro. A polícia estava inteiramente satisfeita e preparava-se para sair. O júbilo que me inundava o coração era forte demais para que pudesse contê-lo. Ardia de desejo de dizer uma palavra, uma única palavra, à guisa de triunfo, e também para tomar duplamente evidente a minha inocência. — Senhores — disse, por fim, quando os policiais já subiam a escada — , é para mim motivo de grande satisfação haver desfeito qualquer suspeita. Desejo a todos os senhores ótima saúde e um pouco mais de cortesia. Diga-se de passagem, senhores, que esta é uma casa muito bem construída... (Quase não sabia o que dizia, em meu insopitável desejo de falar com naturalidade.) Poderia, mesmo, dizer que é uma casa excelentemente construída. Estas paredes — os senhores já se vão? — , estas paredes são de grande solidez.
Nessa altura, movido por pura e frenética fanfarronada, bati com força, com a bengala que tinha na mão, justamente na parte da parede atrás da qual se achava o corpo da esposa de meu coração. Que Deus me guarde e livre das garras de Satanás! Mal o eco das batidas mergulhou no silêncio, uma voz me respondeu do fundo da tumba, primeiro com um choro entrecortado e abafado, como os soluços de uma criança; depois, de repente, com um grito prolongado, estridente, contínuo, completamente anormal e inumano. Um uivo, um grito agudo, metade de horror, metade de triunfo, como somente poderia ter surgido do inferno, da garganta dos condenados, em sua agonia, e dos demônios exultantes com a sua condenação.
Quanto aos meus pensamentos, é loucura falar. Sentindo-me desfalecer, cambaleei até à parede oposta. Durante um instante, o grupo de policiais deteve-se na escada, imobilizado pelo terror. Decorrido um momento, doze braços vigorosos atacaram a parede, que caiu por terra. O cadáver, já em adiantado estado de decomposição, e coberto de sangue coagulado, apareceu, ereto, aos olhos dos presentes. Sobre sua cabeça, com a boca vermelha dilatada e o único olho chamejante, achava-se pousado o animal odioso, cuja astúcia me levou ao assassínio e cuja voz reveladora me entregava ao carrasco.
Eu havia emparedado o monstro dentro da tumba!
ANEXO 2
GATOS E LITERATURA
Pensão familiar
Jardim da pensãozinha burguesa.
Gatos espapaçados ao sol.
A tiririca sitia os canteiros chatos.
O sol acaba de crestar as boninas que murcharam.
Os girassóis
amarelo!
resistem.
E as dálias, rechonchudas, plebéias, dominicais.
Um gatinho faz pipi.
Com gestos de garçom de restaurant-Palace
Encobre cuidadosamente a mijadinha.
Sai vibrando com elegância a patinha direita:
— É a única criatura fina na pensãozinha burguesa.
Manuel Bandeira
http://www.jornaldepoesia.jor.br/manuelbandeira04.html
Ode ao gato -
Os animais foram
imperfeitos,
compridos de rabo, tristes
de cabeça.
Pouco a pouco se foram
compondo,
fazendo-se paisagem,
adquirindo pintas, graça, vôo.
O gato,
só o gato
apareceu completo
e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer.
O homem quer ser peixe e pássaro
a serpente quisera ter asas,
o cachorro é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca,
mas o gato
quer ser só gato
e todo gato é gato
do bigode ao rabo,
do pressentimento à ratazana viva,
da noite até os seus olhos de ouro.
Não há unidade
como ele,
não tem
a lua nem a flor
tal contextura:
é uma coisa só
como o sol ou o topázio,
e a elástica linha em seu contorno
firme e sutil é como
a linha da proa
de uma nave.
Os seus olhos amarelos
deixaram uma só
ranhura
para jogara as moedas da noite
Oh pequeno
imperador sem orbe,
conquistador sem pátria
mínimo tigre de salão, nupcial
sultão do céu
das telhas eróticas,
o vento do amor
na intempérie
reclamas
quando passas
e pousas
quatro pés delicados
no solo,
cheirando,
desconfiando
de todo o terrestre,
porque tudo
é imundo
para o imaculado pé do gato.
Oh fera independente
da casa, arrogante
vestígio da noite,
preguiçoso, ginástico
e alheio,
profundíssimo gato,
polícia secreta
dos quartos,
insígnia
de um
desaparecido veludo,
certamente não há
enigma
na tua maneira,
talvez não sejas mistério,
todo o mundo sabe de ti e pertence
ao habitante menos misterioso,
talvez todos acreditem,
todos se acreditem donos,
proprietários, tios
de gatos, companheiros,
colegas,
discípulos ou amigos
do seu gato.
Eu não.
Eu não subscrevo.
Eu não conheço o gato.
Tudo sei, a vida e seu arquipélago,
o mar e a cidade incalculável,
a botânica,
o gineceu com os seus extravios,
o pôr e o menos da matemática,
os funis vulcânicos do mundo,
a casaca irreal do crocodilo,
a bondade ignorada do bombeiro,
o atavismo azul do sacerdote,
mas não posso decifrar um gato.
Minha razão resvalou na sua indiferença,
os seus olhos têm números de ouro.
Pablo Neruda
No mundo, são ao todo 744 livrarias conhecidas onde moram gatos
Europa
“Dizem que para se gostar de gatos, animais independentes por natureza, é preciso ter a alma livre, sem essa pretensão humana de se dominar a tudo e a todos. Mas serão os escritores pessoas de almas livres? Livres por serem capazes de deixar seus personagens tomarem conta de seus próprios textos? Suas criaturas dominarem seus próprios criadores? Já estou eu me enredando no mistério felino e tecendo considerações filosóficas a respeito.
Ou será que são os gatos que procuram os escritores? Há gatos que adoram livros e vivem
http://www.alineponce.com.br/gatosletras.html

Estado Unidos – Pensilvânia
GATO
Se observarmos detidamente este animal veríamos que seu simbolismo é quase dedutível por motivos relativos a sua conduta sarcástica e também por sua ambivalência entre o bem e o mal.
Na Índia, estátuas de gatos ascetas representam a bem-aventurança do mundo animal. Ao mundo budista, o gato e a serpente não desfrutam de grande simpatia pois foram os únicos animais que não choraram a morte de Buda. De qualquer maneira, precisamente por isto, dão mostras de uma inteligência superior. Assim também a Cabala considera o gato e a serpente como representação do pecado, o abuso dos bem do mundo.
No Egito, a deusa Bastet, protetora do homem, do casamento, simboliza também a arte e habilidade do felino que a deusa põe a serviço do homem, para que lhe ajude em sua constante luta contra os perigos da existência.
No Islã, seu símbolo é favorável, salvo se sua cor é o negro. Nesta tradição conta a lenda, que, estando doentes os viajantes da Arca de Noé - graças aos ratos, se queixaram a este, então Noé arranhou a frente de um leão provocando-lhe espirros dos quais saiu um casal de gatos.
http://www.doutorcao.com.br/texto_artigo_simbolismo.htm
Na literatura, Guimarães Rosa, Jorge Amado, Manuel Bandeira, Raquel de Queirós, Charles Baudelaire, T.S.Eliot, Edgar Allan Poe entre outros o cantaram em verso e prosa. Eliot, autor dos poemas que deram origem ao musical Cats, há anos em cartaz na Broadway - NY, jamais imaginou tamanho sucesso quando os publicou. Para os amantes da modernidade, outra prosa de sucesso é "Internet for Cats", livrinho da moda entre os americanos, onde o felino protagonista navega empolgadamente pela Internet. Um pouco mais sério é o Siamês Akhenaton, narrador de "Uma história do homem contada por um gato" (Ed.Siciliano), traduzido do siamês pelo historiador francês Gérard Vincent. Fantástico.
http://www.geocities.com/rainforest/andes/8032/page7.html
Folclore e Superstições
Gatos e Presságios
· Gatos podem predizer o tempo: Quando vai ventar eles unham os tapetes e cortinas; é muito provável que chova se um gato limpa muito suas orelhas.
· Na mitologia, acreditava-se que o gato possuía grande influência sobre o tempo. Bruxas cavalgavam sobre as tempestades sob a forma de um gato. Os cães eram o símbolo do vento, os gatos de chuva torrencial. Talvez venha daí a expressão "chover cães e gatos" .
· Algumas pessoas acreditam que se o gato lava seu rosto e patas na sala de visitas, é porque alguém irá chegar.
· Se o gato olha continuamente pela janela, é porque vai chover.
· Alguns gatos pressentem terremotos.
· Os marinheiros utilizavam gatos para predizer como seriam suas viagens. Se o gato miasse alto, a viagem seria difícil. Um gato brincalhão significava que a viagem seria tranqüila e com bons ventos.
· Algumas pessoas acreditam que os gatos possam ver as nossas auras.
· Antigamente, na América, se um gato sentasse de costas para o fogo, os donos sabiam que viria uma onda de frio.
· Gato dormindo com as quatro patas escondidas debaixo do corpo, significa que um mal tempo está pra chegar.
· Algumas pessoas acreditam que os gatos podem ver o espectro da morte.
· Se você achar um pêlo branco num gato preto terá boa sorte.
· Gatos tricolores podem ver o futuro e trazer o dom de sorte para uma criança.
· Os marinheiros acreditavam que, se um gato se lambe no sentido contrário ao pêlo, uma chuva de granizo estava a caminho. Se o gato espirrasse, choveria e se o gato pulasse, logo ventaria.
· No Antigo Egito, gatos sagrados eram mantidos em templos e constantemente observados por sacerdotes. Seus movimentos eram interpretados para saber o futuro.
· Antigamente na Pensilvânia, colocava-se um gato num berço vazio de um casal recém-casado, para garantir que teriam muitos filhos.
· Na Escandinávia, os gatos são símbolo de fertilidade.
· Era uma crença popular, no passado, que gatos poderiam começar tempestades, através da mágica de suas caudas. Por isso os marinheiros faziam o possível para que os gatos dos navios estivessem sempre bem alimentados e felizes.
· O Hindu acredita que o gato é o símbolo de nascimento de uma criança.
Maltratar um Gato
· Se você chutar um gato terá reumatismo naquela perna.
· Se você for fazendeiro e matar um gato, seu gado morrerá misteriosamente.
· Se você afogar um gato morrerá afogado também.
· Marinheiros acreditavam que era a garantia de terríveis tempestades e má sorte, caso se atirasse um gato ao mar.
· Acabar com, mesmo que apenas uma, das nove vidas de um gato, é ser perseguido por esse gato para o resto da vida.
Gatos e Sorte
· Crianças inglesas acreditavam que ver um gato branco a caminho da escola era sinal de problemas. Para evitá-los, elas tinham que cuspir ou dar meia volta, fazendo o sinal da cruz.
· Chaeles !, Rei da Inglaterra possuía um gato preto que acreditava lhe trazer boa sorte. Ele tinha tanto medo de perder o gato, que o mantinha sobre vigilância dia e noite. Um dia depois da morte do gato, ele foi preso.
· Um gato espirrando é bom presságio para quem ouvir.
· No folclore americano, sonhar com gato branco traz boa sorte.
· Na França, se acreditava que achando um pêlo branco num gato preto, a pessoa teria boa sorte para o resto da vida.
·
· No século 16, quem visitasse um lar inglês tinha sempre que beijar o gato da família, para trazer sorte.
· Mulheres de pescadores, mantinham um gato preto em casa para preveinir contra desastres no mar.
Encontros com Gatos
· Se um gato correr à frente de um marinheiro, no cais, acreditava-se que traria boa sorte. Se o gato cruzasse seu caminho, traria má sorte.
· Gatos eram mantidos nos navios para trazer boa sorte.
· Dá azar ver um gato branco à noite.
· Na Irlanda, se um gato preto, cruzasse o caminho de alguém, em noite de luar, era previsão de morte numa epidemia.
· Na França, há uma superstição de que cruzar um rio carregando um gato dá má sorte.
· Na Normandia, ver um gato tricolor predizia morte por acidente
Gatos e pessoas doentes ou morrendo
· Uma antiga simpatia para curar terçol, era esfregar o rabo de um gato preto nele.
· Na Transilvânia, se um gato pulasse sobre um morto ele se torna ria um vampiro.
· No início do Cristianismo, se um gato sentasse sobre uma sepultura, era porque a alma do morto estava no inferno.
. Ver dois gatos brigando próximo a uma pessoa morrendo, ou na sua sepultura, logo após o enterro, significava que o demônio e os anjos lutavam por sua alma.
· No século 16, se um gato preto deitasse na cama de uma pessoa doente ele morreria. Também se acreditava que um gato não permanecia na mesma casa em que alguém estivesse para morrer. Se a gato de uma família se recusasse a ficar na casa, era um mau presságio.
· Os Escoceses acreditavam que se um gato entrasse no cômodo onde estivesse um morto, a próxima pessoa que tocasse o gato ficaria cega.
· Se a procissão de um funeral encontrasse um gato preto pelo caminho, era sinal de que outro membro da família do morto também morreria.
· A lenda de que os gatos têm 9 vidas, possivelmente surgiu devido ao número 9 significar 3 vezes a Trindade, o que significa sorte.
· Um provérbio Inglês diz: "Um gato possui 9 vidas. Com 3 ele brinca, 3 ele perde e com 3 ele fica."
Gatos e Vida Após a Morte
· No Japão existe uma lenda de que os gatos se tornam grandes espíritos quando morrem. No Budismo, o corpo de um gato é o local temporário de descanso da alma de pessoas espiritualmente elevadas.
· Algumas pessoas acreditam que os gatos possam fazer viagens astrais. Também acreditam que se um gato adotar você, ele ficará ao seu lado mesmo após a morte.
Gatos e Bruxas
· Uma lenda Escandinava dizia que uma deusa do amor e fertilidade, chamada Freya, tinha sua carruagem puxada por 2 gatos pretos. Depois de servir Freya por 7 anos, os gatos se tornavam feiticeiras.
· Antigamente, dizia-se que bruxas se transformavam em gatos à noite.
· Folklore has it that if a witch becomes human, her black cat will no longer reside in her house.
· Na Idade Média os gatos foram associados ao demônio. Por serem noturnos e vagarem pela noite, acreditava-se que fossem sobrenaturais e servidores de bruxas, ou mesmo, as próprias bruxas. Em parte pelo movimento insinuante e pelos olhos que brilhavam no escuro, eles se tornaram a personificação do mal, da escuridão, do mistério, possuidores de poderes apavorantes. Qualquer coisa que de ruim que acontecesse, sempre era culpa de um gato.
Miscelânea
· Em tempos passados, a punição por um crime algumas vezes incluía a amputação da língua. A língua do condenado era dada aos animais do rei. Como se pode ver existe uma verdade histórica na frase "O gato comeu sua língua?"
· Gatos domésticos não são mencionados na Bíblia.
· De acordo com a lenda, os gatos foram criados quando a Arca de Noé ficou infestada de ratos. Noé ordenou que os leões espirrassem, e do espirro do leão se formou o gato.
http://www.becodosgatos.com.br/folc.htm adaptado
terça-feira, maio 19, 2009
A obra machadiana é de modo geral minada por uma mordacidade tão velada que muitas vezes não é percebida pelos leitores desatentos. O próprio narrador intencionalmente borra as fronteiras que contornam o que é a atitude condenável e a inexorável, como nos diz Villaça em seu artigo sobre o conto “O caso da Vara”. Aqui vamos nos deter em três contos de Machado que têm traços semelhantes, que são “Cantiga de Esponsais”, “O homem Célebre” e “O Machete”. O que esses contos têm em comum é o fato, não coincidente, de tratar da impotência do homem. As máscaras, de acordo com Bosi, são a defesa imprescindível do sujeito frente à sociedade, o que ele pode mostrar, o que é preciso mostrar para ele não ser devorado, nesses contos será frisado também essa questão.
Em “Cantiga de Esponsais” temos Mestre Romão, a personagem principal, maestro conhecido e aplaudido um senhor descrito pelo cruel narrador como um “velho que rege a orquestra, com alma e devoção” com “o mesmo amor que empregaria se a missa fosse sua”. Mas não é. E nisso, está toda a infelicidade desse ‘velho’ que no palco mostra-se feliz; ele veste essa máscara para o público, pois assim é aplaudido e admirado. E, no entanto, quando é descrito o ambiente onde ele vive, percebe-se que a felicidade de Mestre Romão não passa, definitivamente, de uma máscara social. O interior sombrio e nu da casa reflete o interior do dono. O narrador então fala qual é a tristeza de Romão: é a falta de “língua a seu dom”. O maestro não conseguia compor, não sabia exteriorizar as muitas operas e missas que havia dentro de si. Chegou um tempo em que Romão resolveu casar-se, nisso se animou a compor um canto esponsalício. Dentro de três anos que ficou casado não conseguiu compor o canto, sua felicidade, se é que existiu, não pode ser transcrita. Nesse momento do conto, o narrador nos revela um problema cardíaco da personagem, que se agravou talvez com os recentes acontecimentos. Após uma visita do médico alertando-o de que precisava não pensar em músicas, Mestre Romão decide que precisa a todo custo escrever o canto esponsalício. Nesse momento, o narrador nos leva a crer que ele realmente conseguirá deixar sua marca na história. Mas encaminhando-se para o final do conto, vemos que Romão não só não logrou seu desejo como o viu, pouco antes de falecer, concretizado no cantarolar de uma jovem esposa recém-casada. Alfredo Bosi em “A Mascara e a Fenda”, fala sobre a temática da impotência criativa que ronda o conto e a personagem. Romão é impotente porque não tem o dom para dá forma a suas idéias. E esse dom é dado pela natureza, não dependendo de seus esforços, sendo que essa natureza não é nem mais justa nem mais igualitária que a própria sociedade.
Em seguida temos outro conto de Machado, o qual também ronda a impotência. Em “O homem célebre” temos Pestana, conceituado compositor de polcas, estas lhes saem sem dificuldade, mas que persegue com afinco compor uma música erudita. Assim, Pestana passa horas noturnas tentando compor algo, mas não sai nada original. Pestana é tão obcecado por esse desejo que chega a se vestir como um compositor clássico, essa é sua fenda, é o máximo de si que pode ser mostrado, sua máscara é ser um compositor de polcas satisfeito. Assim como Mestre Romão, casa-se e enquanto esse queria escrever um canto matrimonial, Pestana persegue após a morte da mulher tísica, compor um Réquiem, para o aniversário de um ano de morte da esposa, no entanto, passa-se o primeiro ano, e Pestana não consegue compor nada bom volta então, por necessidades financeiras, a compor suas polcas. Morre sem compor uma musica erudita e sem compor suas duas ultimas polcas. A frase derradeira do conto “expirou na madrugada seguinte (...) bem com os homens e mal consigo mesmo” é muito representativa da angústia da personagem. Mais uma vez como já dito, machado trabalha a impotência, mas Pestana consegue criar diferentemente de Romão, porém ele não se satisfaz plenamente com o que compõe. Percebemos, então, uma incessante busca por parte dessas personagens de um dom que elas não possuem e morrem sem se imortalizarem pela arte da forma que desejavam.
Outro músico machadiano do qual falaremos é Inácio Ramos do conto “O Machete”. Nesse conto, temos um diferencial dos dois primeiros. O protagonista Inácio inicia sua vida musical tocando rabeca, mas logo se apaixona por violoncelo. Faz, então, da rabeca seu meio de vida e do violoncelo sua alma. Não tem dificuldade para compor o que gosta e, a priori, concilia bem trabalho e paixão, porém seu defeito é agradar a si mesmo mais do que agrada aos outros. Casa-se com Carlotinha, com quem tem um filho, com ela comunga uma vida simples e harmônica. Certo dia, enquanto Inácio tocava seu violoncelo apareceram a sua janela dois jovens, dentre os quais Barbosa que tocava machete, e que logo cai nas graças de Carlotinha. Isso provoca em Inácio ciúmes por seu instrumento, clássico e refinado para o gosto da mulher, não agradar tanto quanto o popular machete. Decide, então, que aprenderá a tocar o tal instrumento o que, todavia, não concretiza. Pois as expectativas do leitor e do marido são quebradas pela repentina fuga da mulher com Barbosa, deixando-lhe o filho. Este que a princípio seria violoncelista agora sob a exortação melancólica do pai aprenderá a tocar machete. Inácio teme que o filho tal como ele dispa-se da máscara social. O que poderíamos dizer dessas personagens é que há um desencontro entre sua essência e sua aparência, reflindo sobre a citação de Garbuglio:
Inácio não vestiu a máscara quando preciso e, portanto, foi devorado, e procura fazer com que seu filho não o seja. Já as outras duas personagens, vestiam suas máscaras de felicidade para o público, porém foram consumidos por si mesmos. De todo modo, eles foram vítimas por não poderem agradar a si mesmos. E é esse o joguete da trama machadiana, o homem tem um status social necessário para sua permanência na sociedade e deve segui-lo, porém os conflitos, as contradições humanas geram esse desgoverno de que nos fala Garbuglio. Mais uma vez, vale lembrar Bosi quando diz que “o vencedor é aquele que correu firmemente para o interesse individual, para o status; e que, em situações de risco, não deixou jamais cair a máscara”. Em algum momento da trama as personagens não puderam sustentar suas máscaras ou a ausência dela.
domingo, julho 15, 2007
A pragmática como hoje é conhecida inicia-se com a teoria dos atos de fala do filósofo da linguagem John Austin. Ao contrário da lingüística, que pensava a língua como forma do homem descrever o mundo, Austin chegou ao que Paulo Ottoni denomina visão performativa da linguagem.
Austin começa sua teoria separando as afirmações constativas e as performativas. As primeiras são aqueles que descrevem os estado de coisas. Por exemplo, na oração O céu é azul, descreve-se um estado do céu que é ser azul, fato constatável. Esse tipo de oração pode ser considerado em termos de verdade ou mentira. Por outro lado, as performativas não descrevem estado de coisas.
Para delimitar as performativas Austin tomará certos enunciados com as seguintes características: a)não descrevem nada, portanto não são nem verdadeiras nem falsas; b) correspondem, quando se realizam, a execução de uma ação. Por exemplo, no enunciado Eu prometo que vou te ajudar o ato de prometer se realiza no momento em que se disse Eu prometo. Ainda que o falante não cumpra, e isso implica em fracasso do performativo. Enquanto os constativos são verdadeiros ou falsos, os performativos têm sucesso, quando certas condições são cumpridas, e fracassam, quando não o são.
Como pode ser visto no exemplo Eu prometo que vou te ajudar, não há nenhum tipo de descrição e, portanto não pode ser julgado o enunciado como falso ou verdadeiro, já que não a uma constatação, como em Eu jogo futebol, o fato de jogar independe da minha enunciação; em Eu me desculpo pelo que ocorreu, o fato de desculpar-me depende de minha enunciação. Então para que eles tenham condição de sucesso ou fracasso devem estar em conformidade com certas circunstâncias. Por exemplo, numa cerimônia de casamento quem deve dizer o performativo aceito são os noivos. Se os padrinhos ou os pais dos noivos dissessem, ele não teria validade. A cerimônia seria então anulada e haveria o fracasso do performativo.
As principais condições de sucesso de um performativo são:
A observância de que certas enunciações, por convenção, devem ser enunciados em circunstâncias adequadas por pessoas autorizadas a tal ato. Por exemplo, a abertura de uma sessão na Câmara dos deputados, deve ser feita pelo presidente da Câmara perante os deputados.
A enunciação deve ser executada corretamente pelos participantes. Por exemplo, num batismo deve-se dizer eu te batizo e não eu te perdôo.
A enunciação deve ser realizada integralmente pelos participantes. Por exemplo, numa aposta, para que o ato se realize alguém deve aceita-lo.
Claro que, na prática nem tudo que se promete se cumpre. No entanto, ao prometer o falante tinha a intenção de que o ouvinte acreditasse nele. Portanto, Austin cria condições que fazem dos performativos um ato puramente verbal e vazio. Quando uma enunciação exige que o falante tenha certos sentimentos ou intenções, é preciso quer ele tenha de fato esses sentimentos ou intenções. Quando o falante diz Quero dar-lhe meus pêsames não sentir pesar pelo interlocutor, ou Prometo que virei amanhã, sem ter intenção de vir, o performativo será realizado, mas não terá sucesso, realizar-se-á verbalmente, mas não efetivamente.
Com o tempo Austin aprofundou sua teoria e introduziu seu trabalho com os performativos implícitos, ou seja, que não são expressos verbalmente na primeira pessoa do singular do presente do indicativo na voz indicados, os que têm o verbo na forma indicada serão os performativos explícitos.
Verificou-se que há a utilização de performativos que se realizam de forma diferente. Em Saia e Ordeno que você saia verifica-se dois performativos. Sabe-se que o primeiro é um performativo porque desenvolve-se no segundo. Eu virei amanhã quer dizer Eu prometo que virei amanhã; É proibido fumar quer dizer Eu proíbo fumar há sempre um eu que fala.
Haverão performativos sem que apareçam palavras como prometer, advertir e obrigar, como também há enunciados em que essas palavras estarão presentes sem que se realizem tais ações. Em Curva perigosa há um performativo de advertência. Em Quando eu chegar lá, eu me desculpo. Não ocorre um performativo apesar do verbo, pois ele está representando uma ação futura.
Para distinguir os performativos dos constativos a enunciação será caracterizada por três atos: o locucional, que é o que se realiza ao dizer uma enunciação. O ilocucional que é o que se realiza na linguagem e o perlocucional, que como o próprio prefixo indica se realiza através da linguagem.
Chega-se ao ápice da teoria austiniana. Observa-se que as constativas são performativas, pois realizam o ato ilocucional da afirmação. Aqui Ottoni chama essa teoria de visão performativa da linguagem, pois segundo o lingüista, para Austin a linguagem é ação, é uma forma de agir no mundo.
John Searle, um sucessor de Austin, retomará seu programa e iniciará a teoria da polidez, acrescentando e aprofundando conceitos de Austin.
FIORIN, José Luiz (org.). Introdução à Lingüística. 3 ed. São Paulo: Contexto, 2004.
domingo, julho 01, 2007
A partir do início do século XX, o termo estilística foi utilizado para “designar uma forma especifica de estudo das obras literárias – o estudo do seu estilo, do modo peculiar como em cada obra a linguagem está plasmada e utilizada.”[1] Um dos fundadores da estilística moderna foi Charles Bally (1865-1947), discípulo de Saussure quem primeiro colocou a Estilística como ramo da ciência da linguagem, ao lado da lingüística; e também Karl Vossler (1872-1949), discípulo de Croce.
A linguagem, segundo Bally, “constitui um sistema de meios de expressão que exterioriza a parte intelectual do nosso ser pensante”[2]. Bally parte da estrutura bifacial do signo lingüístico (significante e significado) como base teórica de seus estudos, alargando ainda a noção de significado. Para Bally, a estilística vai estudar a langue como um sistema de signos afetivos, separada totalmente da literatura; assim sendo, o lingüista opõe sua teoria ao conceito de estilística como parte da ciência da linguagem voltada para os fatos particulares do estilo, ou como modo particular de organização da linguagem numa determinada obra, ou seja, como o estilo pertencente a um individuo criador. Para o teórico a estilística investiga os recursos afetivos da língua, e por isso sua teoria ser considerada uma Estilística da língua ou do Código. Assim, por exemplo, “o uso de sufixos diminutivos com valor intensivo como “A lua clarinha brilhava” não é um ato pessoal de criação, mas um recurso oferecido a qualquer falante da língua[3]”.
Do ponto de vista de Vossler, que cria uma Estilística do Discurso ou da mensagem, e mais adiante também o de Leo Spitzer, cabe à estilística analisar a expressão verbal de uma intuição. Opõe-se à concepção positivista de linguagem e cria o método idealista, considerando o espírito humano como causa do fenômeno lingüístico, isto quer dizer, sua teoria parte da concepção de estilística como estudo de obras literárias individuais, a partir do conceito-chave de estilo literário como desvio da norma lingüística coletiva. Esse método não possui passos formais, a análise fica a critério do crítico e da sua preparação e sentimento estético. Vossler aceita a concepção de linguagem como criação e evolução, sendo a criação estudada pela Estilística e a evolução pela História da Cultura. Leo Spitzer aproxima sua teoria da de Vossler ao considerar o estilo individual como objeto de estudo da Estilística, nisso opondo-se à concepção de Bally. Em seus primeiros estudos afirma ser o estilo a expressão de uma personalidade em termos lingüísticos, seguindo uma linha psicanalítica, daí falar em pessimismo de Machado, por exemplo. Em um segundo momento assumindo uma posição pre-estruturalista ou funcionalista Leo Spitzer afinal encarou a obra de arte literária como um todo ou como uma estrutura, em função da qual os seus elementos integrantes adquiriam sentido.
Da integração dessas duas correntes surge então o terceiro caminho, o da escola espanhola, com Amado Alonso e Dámaso Alonso, entendendo que estilística da língua é uma espécie de fase preparatória da Estilística do Discurso(=ciência dos estilos literários). “Amado Alonso e Dámaso Alonso entendem por estilo o que peculiar e diferencial numa fala.”[4] Nesses teóricos está contida a idéia de que o significante instaura novos significados no texto literário, através das inter-relações existentes entre um e outro. Essas inter-relações entre os significados podem ser tanto verticais, ou seja, o nexo entre os diversos significados parciais de significados correspondentes; quanto horizontais, ou seja, entre os diversos significados parciais de um mesmo significado, por exemplo, significado A que comporta os diversos significados parciais(a1, a2...) correspondente ao significado B que comporta (b1,b2...). A estilística vai se ocupar não só da análise vertical entre a1 e b1, mas também da analise horizontal entre a1 e a2; e b1 e b2. Segundo o pensamento de Dámaso Alonso, “São estas series de nexos verticais e horizontais que constituem o poema como um organismo.”[5] Uma visão pre-estruturalista, sendo o estilo uma forma literária de criação poética, definida por uma estruturalidade orgânica.
Atualmente a estilística tomou novos caminhos com o impacto estruturalista explicitado na obra de Riffaterre. Associando a Lingüística à Estilística Riffaterre toma como base o recurso aos métodos lingüísticos para a descrição objetiva do funcionamento da língua na literatura. “A estilística moderna apresenta múltiplas feições e tendências” (Aguiar e Silva, pg.624), Há estudos consagrados a um autor, a um período ou a uma obra. Encontrando estudos dedicados aos estilos de época - barroco, romantismo, etc. - a elementos estilísticos isolados, tanto considerados num autor ou numa obra ou numa época ou num movimento literário e até numa literatura nacional – a metáfora, a sinestesia, a hipérbole, etc. - a motivos estilísticos - a vida, a morte, o tempo, o espaço, a natureza, etc. -, à comparação estilística de textos, aos caracteres estilísticos próprios dos diferentes gêneros literários para assim chegar a composição de uma tipologia dos estilos[6].
[1] AGUIAR E SILVA, Vitor Manuel. Estilística. In. Teoria da Literatura. Ed.3. São Paulo, 1976. pg. 599
[2] idem
[3] AZEVEDO FILHO, Leodegário. Teoria da literatura. Rio de Janeiro: Edições Ginasa, 1973.
[4] http://www.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/E/estilistica.htm
[5] AZEVEDO FILHO, Leodegário. Teoria da literatura. Rio de Janeiro: Edições Ginasa, 1973 pag.40.
[6] AGUIAR E SILVA, Vitor Manuel. Estilística. In. Teoria da Literatura. Ed.3. São Paulo, 1976
“Nascer é assim:
Os girassóis lentamente viram suas corolas para o sol. O trigo está maduro. O pão é com doçura que se come. Meu impulso se liga ao das raízes das árvores.”
Clarice Lispector, Água Viva, p.39.
“Tinha que existir uma pintura totalmente livre da dependência da figura – o objeto – que, como a música, não ilustra coisa alguma, não conta uma história e não lança um mito. Tal pintura contenta-se em evocar os reinos incomunicáveis do espírito, onde o sonho se torna pensamento, onde o traço se torna existência.”
Michel Seuphor
“Olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas”.
Ana C. César.
Formigas entram no meu sapato enquanto ando e é tão difícil caminhar, assim escrevo: com formigas. Diante de um papel imagino tantas possibilidades que me esqueço do que realmente quero falar, talvez não queira dizer nada, ou as mãos não acompanham o pensamento.
Começo com o trecho: Era uma vez... Mas alguém já começou assim, não há mais o que ser dito quiçá, embora tudo o que tenha sido escrito ainda não preenche o meio vazio, por isso eu preciso escrever algo, escrever por mim e para mim. Não preciso da aprovação dos outros apenas da minha saciação e assim que eu a tiver largo tudo, o teclado, a tela, a caneta e o papel e volto ao meu estado de breu. Mas poderei dizer que num breve instante eu tive luz e iluminei-me. A cada linha torna-se mais pesaroso, nunca gosto de minhas palavras... São tão minhas e tão frágeis, tão pouco explicativas. Quero mais, e para obter mais devo parar por aqui e buscar no fundo de um desses poços cheios de conhecimento, que se vêem por aí e me aprazer numa sombra para descansar da busca enquanto tomo da água que ele tem a me oferecer. O triste é que ainda sei quase nada e o justo é que quase nada me sabe.
Há um sol que ilumina e o mesmo sol é o que produz sombra, do mesmo jeito que o sol não pode iluminar tudo, não posso saber tudo e antes de poder, não quereria. Por que o que seria de alguém que soubesse de tudo? Ainda assim não preciso saber de tudo para falar do que quero, minha visão é parcial e sempre será nunca direi o fato, mas sim o que eu penso sobre aquilo.
Não quero ambrosia, poupe-me da imortalidade, quiçá um dia eu possa escrever algo que não seja para mim.
quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Na Oitava Avenida só se ouvia a tac surdo da bengala sobre a superfície úmida do asfalto. As arvores do jardim central farfalhavam numa dança sedutora.
As mãos trêmulas batiam insistentes à porta – o tac- tac... Mais perto – ninguém atendia a sala imergida no breu da noite. A moça que batia desiste da ação continua e desata a correr sumindo e surgindo na claridade alaranjada do poste.
O homem de bengala a persegue a passos largos, sóbrios, ao longo da rua. Para que uma bengala? Ele visivelmente caminha sem dificuldades. Mesmo assim a bate no chão como para alarmar a presa.
Ela cai quase que voluntariamente numa poça d’água, está tão cansada, seu corpo jazia pesado e seu cérebro maquinava os mais terríveis fins para sua vida. Não se sabe desde quando ou de onde vem correndo. A noção se tempo se perde totalmente e o barulho agudo do silêncio estoura em seus ouvidos. A bengala parou.
É o fim. Será assim com todos os assassinados?- pensa - será que já morri? A escuridão total e a ausência de barulho fazem lembrar o universo. Ele já me matou ou esperar a morte sem lutar, em parte, já é morrer e daí essa sensação? Não sinto dor, nem o calor do sangue escorrendo sob mim, forjando um tapete fúnebre [...]forjando um manto fúnebre entre mim e o asfalto, tão pouco ouvi tiro ou qualquer objeto perfurando minha carne.Estou tão cansanda...Sente-se virar; seus olhos se abrem para o infinito -- haveria estrelas nesta noite? --mas um rosto a observava estático-- SUSTO. Numa fração eterna de segundos--nao se movem.ela fecha os olhos e sela-os com uma lágrima...Da ponta da bengala surge uma lâmina afiada que é cravadaem seu peito, seus olhos se arregalaram castanhos, ela se contorce esbaforida num último espasmo...depois olha vidrada as roseiras. No galho de uma arvorezinha uma coruja marrom--dessas que se vêem por aí-- pia alto e vôa. O homem se inclina suavemente sobre o corpo e observa-o meticulosamente como se procurasse algo...