Fé e Martírio
Jorge de Andrade em Vereda da Salvação mistura fatos reais com fatos possíveis. Ocorrido no nordeste de Minas Gerais, em meio à miséria por que passava, e ainda passam as famílias rurais de baixa renda, massacrados pela fome e a falta de horizonte surge na mentalidade daquele povo a possibilidade de um vida melhor no além-morte, e um fanatismo que fez estourar movimentos messiânicos pelo País tal como o famoso episódio de canudos. Esse já em meados do século XX. A peça base-se nisso e o autor teve até mesmo a preocupação de manter o nome verdadeiro de algumas pessoas de Malacacheta em algumas das personagens, literalmente mimetizando e ficcionalizando a realidade.
O cenário na peça é dotado de uma carga semântica e simbólica expressa, sobretudo, pela disposição dos casebres e pela forma como a mata encobre as casas como se elas estivessem no fundo de um poço, envolvendo literalmente as personagens numa atmosfera sombria, o crepúsculo, miserável e fantasiosa. Os casebres de Joaquim, Manoel e Artuliana insinuam a composição de um triangulo amoroso, cujo “intruso” é Joaquim, que nutre um sentimento indefinido e denso por Artuliana sem a menor chance de ser correspondido, já que esta espera um filho de Manoel e visivelmente é apaixonada por ele. Artuliana já de inicio é portadora de um segredo, é uma mulher provocante, decidida e realista e não se convence pela nova religião. Manoel é um homem forte, de meia idade, bondoso e muito trabalhador, quem conseguiu junto aos fazendeiros casas para alguns dos agregados. Joaquim é um moço magro, alto, com aparência frágil e pouco dado ao trabalho braçal, alimenta um rancor por Manoel e chega até a por o filho de Manoel contra o próprio pai. Aparenta ter sérios complexos e problemas psicológicos, na peça chega a insinuar que ele tenha complexo de édipo, recusando casar-se. Para tanto põe na frente suas “obrigações religiosas”. Formam-se, assim, dois pólos de comportamento: de um lado Manoel, mais material, trabalho e de outro Joaquim, espiritual e obsecado pela religião. E no decorrer da peça os leitores ou espectadores, pendem ora para o realismo de Artuliana e pela “sólida humanidade” de Manoel. Ora se compadece e até compreende os motivos pelos quais os agregados se agarram com tanta fé e martírio àquela crença, não os odiando nem por cometerem infanticídio, pois a própria ingenuidade com que cometem esse crime, em parte, os absolvem.
O tempo é marcado pela passagem do anoitecer à alvorada, ou seja, tudo se passa em algumas horas, efemeridade que lembra o quanto é efêmera a própria vida. O reluzente nascer do dia é contrastado paradoxalmente com os tiros dos fazendeiros, trazendo assim a morte ou a redenção, como criam os seguidores de Joaquim.
A religiosidade é o ponto chave do enredo porque é transformada por Andrade em signo do estigma de uma sociedade cheia de vazios que procuram ser preenchidos pelo desespero ou pela esperança, esperança essa que extrapola os limites do palpável e transcende até mesmo a fronteira entre fé e fanatismo. “Partindo do tipo de reação corrente em nossa sociedade rural- o messianismo, - [Jorge Andrade] a interpretou em correlação estreita com o esmagamento econômico e a espoliação, dando vida [a peça] por uma poderosa caracterização dramática”. [ ].
A cena final é arrebatadora, uma mescla de efeitos visuais e sonoros juntamente com o transe coletivo de que são acometidas as personagens dançando e cantando e fazendo uma coreografia no mínimo exótica. De fato Jorge Andrade não é muito criativo na feitura de historias, nem na composição de personagens: apela mais para os efeitos espetaculares do que para o psicológico, porém “se as personagens perdem em riqueza interior, o talhe grandioso (grandiloqüente) dá-lhes contundência no palco. O gosto do símbolo e a estetização da linguagem configuram um realismo poético. [MAGALDI, Sábato. p.234, 1996]. Magaldi resume claramente o perfil dramático de Andrade e o motivo pelo qual ele conseguiu em sua obra retratar e apreender seu tempo de forma integral.
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