Ambrosia e Girassol
“Nascer é assim:
Os girassóis lentamente viram suas corolas para o sol. O trigo está maduro. O pão é com doçura que se come. Meu impulso se liga ao das raízes das árvores.”
Clarice Lispector, Água Viva, p.39.
“Tinha que existir uma pintura totalmente livre da dependência da figura – o objeto – que, como a música, não ilustra coisa alguma, não conta uma história e não lança um mito. Tal pintura contenta-se em evocar os reinos incomunicáveis do espírito, onde o sonho se torna pensamento, onde o traço se torna existência.”
Michel Seuphor
“Olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas”.
Ana C. César.
Formigas entram no meu sapato enquanto ando e é tão difícil caminhar, assim escrevo: com formigas. Diante de um papel imagino tantas possibilidades que me esqueço do que realmente quero falar, talvez não queira dizer nada, ou as mãos não acompanham o pensamento.
Começo com o trecho: Era uma vez... Mas alguém já começou assim, não há mais o que ser dito quiçá, embora tudo o que tenha sido escrito ainda não preenche o meio vazio, por isso eu preciso escrever algo, escrever por mim e para mim. Não preciso da aprovação dos outros apenas da minha saciação e assim que eu a tiver largo tudo, o teclado, a tela, a caneta e o papel e volto ao meu estado de breu. Mas poderei dizer que num breve instante eu tive luz e iluminei-me. A cada linha torna-se mais pesaroso, nunca gosto de minhas palavras... São tão minhas e tão frágeis, tão pouco explicativas. Quero mais, e para obter mais devo parar por aqui e buscar no fundo de um desses poços cheios de conhecimento, que se vêem por aí e me aprazer numa sombra para descansar da busca enquanto tomo da água que ele tem a me oferecer. O triste é que ainda sei quase nada e o justo é que quase nada me sabe.
Há um sol que ilumina e o mesmo sol é o que produz sombra, do mesmo jeito que o sol não pode iluminar tudo, não posso saber tudo e antes de poder, não quereria. Por que o que seria de alguém que soubesse de tudo? Ainda assim não preciso saber de tudo para falar do que quero, minha visão é parcial e sempre será nunca direi o fato, mas sim o que eu penso sobre aquilo.
Não quero ambrosia, poupe-me da imortalidade, quiçá um dia eu possa escrever algo que não seja para mim.
“Nascer é assim:
Os girassóis lentamente viram suas corolas para o sol. O trigo está maduro. O pão é com doçura que se come. Meu impulso se liga ao das raízes das árvores.”
Clarice Lispector, Água Viva, p.39.
“Tinha que existir uma pintura totalmente livre da dependência da figura – o objeto – que, como a música, não ilustra coisa alguma, não conta uma história e não lança um mito. Tal pintura contenta-se em evocar os reinos incomunicáveis do espírito, onde o sonho se torna pensamento, onde o traço se torna existência.”
Michel Seuphor
“Olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas”.
Ana C. César.
Formigas entram no meu sapato enquanto ando e é tão difícil caminhar, assim escrevo: com formigas. Diante de um papel imagino tantas possibilidades que me esqueço do que realmente quero falar, talvez não queira dizer nada, ou as mãos não acompanham o pensamento.
Começo com o trecho: Era uma vez... Mas alguém já começou assim, não há mais o que ser dito quiçá, embora tudo o que tenha sido escrito ainda não preenche o meio vazio, por isso eu preciso escrever algo, escrever por mim e para mim. Não preciso da aprovação dos outros apenas da minha saciação e assim que eu a tiver largo tudo, o teclado, a tela, a caneta e o papel e volto ao meu estado de breu. Mas poderei dizer que num breve instante eu tive luz e iluminei-me. A cada linha torna-se mais pesaroso, nunca gosto de minhas palavras... São tão minhas e tão frágeis, tão pouco explicativas. Quero mais, e para obter mais devo parar por aqui e buscar no fundo de um desses poços cheios de conhecimento, que se vêem por aí e me aprazer numa sombra para descansar da busca enquanto tomo da água que ele tem a me oferecer. O triste é que ainda sei quase nada e o justo é que quase nada me sabe.
Há um sol que ilumina e o mesmo sol é o que produz sombra, do mesmo jeito que o sol não pode iluminar tudo, não posso saber tudo e antes de poder, não quereria. Por que o que seria de alguém que soubesse de tudo? Ainda assim não preciso saber de tudo para falar do que quero, minha visão é parcial e sempre será nunca direi o fato, mas sim o que eu penso sobre aquilo.
Não quero ambrosia, poupe-me da imortalidade, quiçá um dia eu possa escrever algo que não seja para mim.
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