domingo, julho 01, 2007

Estilística

A partir do início do século XX, o termo estilística foi utilizado para “designar uma forma especifica de estudo das obras literárias – o estudo do seu estilo, do modo peculiar como em cada obra a linguagem está plasmada e utilizada.”[1] Um dos fundadores da estilística moderna foi Charles Bally (1865-1947), discípulo de Saussure quem primeiro colocou a Estilística como ramo da ciência da linguagem, ao lado da lingüística; e também Karl Vossler (1872-1949), discípulo de Croce.

A linguagem, segundo Bally, “constitui um sistema de meios de expressão que exterioriza a parte intelectual do nosso ser pensante”[2]. Bally parte da estrutura bifacial do signo lingüístico (significante e significado) como base teórica de seus estudos, alargando ainda a noção de significado. Para Bally, a estilística vai estudar a langue como um sistema de signos afetivos, separada totalmente da literatura; assim sendo, o lingüista opõe sua teoria ao conceito de estilística como parte da ciência da linguagem voltada para os fatos particulares do estilo, ou como modo particular de organização da linguagem numa determinada obra, ou seja, como o estilo pertencente a um individuo criador. Para o teórico a estilística investiga os recursos afetivos da língua, e por isso sua teoria ser considerada uma Estilística da língua ou do Código. Assim, por exemplo, “o uso de sufixos diminutivos com valor intensivo como “A lua clarinha brilhava” não é um ato pessoal de criação, mas um recurso oferecido a qualquer falante da língua[3]”.

Do ponto de vista de Vossler, que cria uma Estilística do Discurso ou da mensagem, e mais adiante também o de Leo Spitzer, cabe à estilística analisar a expressão verbal de uma intuição. Opõe-se à concepção positivista de linguagem e cria o método idealista, considerando o espírito humano como causa do fenômeno lingüístico, isto quer dizer, sua teoria parte da concepção de estilística como estudo de obras literárias individuais, a partir do conceito-chave de estilo literário como desvio da norma lingüística coletiva. Esse método não possui passos formais, a análise fica a critério do crítico e da sua preparação e sentimento estético. Vossler aceita a concepção de linguagem como criação e evolução, sendo a criação estudada pela Estilística e a evolução pela História da Cultura. Leo Spitzer aproxima sua teoria da de Vossler ao considerar o estilo individual como objeto de estudo da Estilística, nisso opondo-se à concepção de Bally. Em seus primeiros estudos afirma ser o estilo a expressão de uma personalidade em termos lingüísticos, seguindo uma linha psicanalítica, daí falar em pessimismo de Machado, por exemplo. Em um segundo momento assumindo uma posição pre-estruturalista ou funcionalista Leo Spitzer afinal encarou a obra de arte literária como um todo ou como uma estrutura, em função da qual os seus elementos integrantes adquiriam sentido.

Da integração dessas duas correntes surge então o terceiro caminho, o da escola espanhola, com Amado Alonso e Dámaso Alonso, entendendo que estilística da língua é uma espécie de fase preparatória da Estilística do Discurso(=ciência dos estilos literários). “Amado Alonso e Dámaso Alonso entendem por estilo o que peculiar e diferencial numa fala.”[4] Nesses teóricos está contida a idéia de que o significante instaura novos significados no texto literário, através das inter-relações existentes entre um e outro. Essas inter-relações entre os significados podem ser tanto verticais, ou seja, o nexo entre os diversos significados parciais de significados correspondentes; quanto horizontais, ou seja, entre os diversos significados parciais de um mesmo significado, por exemplo, significado A que comporta os diversos significados parciais(a1, a2...) correspondente ao significado B que comporta (b1,b2...). A estilística vai se ocupar não só da análise vertical entre a1 e b1, mas também da analise horizontal entre a1 e a2; e b1 e b2. Segundo o pensamento de Dámaso Alonso, “São estas series de nexos verticais e horizontais que constituem o poema como um organismo.”[5] Uma visão pre-estruturalista, sendo o estilo uma forma literária de criação poética, definida por uma estruturalidade orgânica.

Atualmente a estilística tomou novos caminhos com o impacto estruturalista explicitado na obra de Riffaterre. Associando a Lingüística à Estilística Riffaterre toma como base o recurso aos métodos lingüísticos para a descrição objetiva do funcionamento da língua na literatura. “A estilística moderna apresenta múltiplas feições e tendências” (Aguiar e Silva, pg.624), Há estudos consagrados a um autor, a um período ou a uma obra. Encontrando estudos dedicados aos estilos de época - barroco, romantismo, etc. - a elementos estilísticos isolados, tanto considerados num autor ou numa obra ou numa época ou num movimento literário e até numa literatura nacional – a metáfora, a sinestesia, a hipérbole, etc. - a motivos estilísticos - a vida, a morte, o tempo, o espaço, a natureza, etc. -, à comparação estilística de textos, aos caracteres estilísticos próprios dos diferentes gêneros literários para assim chegar a composição de uma tipologia dos estilos[6].




[1] AGUIAR E SILVA, Vitor Manuel. Estilística. In. Teoria da Literatura. Ed.3. São Paulo, 1976. pg. 599
[2] idem
[3] AZEVEDO FILHO, Leodegário. Teoria da literatura. Rio de Janeiro: Edições Ginasa, 1973.

[4] http://www.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/E/estilistica.htm
[5] AZEVEDO FILHO, Leodegário. Teoria da literatura. Rio de Janeiro: Edições Ginasa, 1973 pag.40.

[6] AGUIAR E SILVA, Vitor Manuel. Estilística. In. Teoria da Literatura. Ed.3. São Paulo, 1976

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